EDITORIAL


Quando eu me poupe a falar,
Aperta-me a garganta e obriga-me a gritar!
José Régio


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20180629

Crime da Poça das Feiticeiras


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"Noite de Sangue e de Mistério... O Crime da Poças das Feiticeiras" de Gilberto de Carvalho, Edição do autor, Tipografia Popular, Viseu, 1931
O autor ofereceu esta obra "a mais completa e exacta reportagem do crime (...) contendo curiosos documentos fotográficos" ao " Ex. mo Grupo Claudivinista, do Porto, que a subsidiou em parte e dela destina o produto à defeza dos condenados, Claudino Lopes Ribeiro, D. Silvina Trindade Ribeiro e Albina Correia".

No antigo caminho que de Viseu, pela Via-Sacra e São Caetano, conduzia a Ranhados que na madrugada de 17 de Julho de 1925, apareceu um homem morto dentro duma poça. A macabra descoberto foi feita, um pouco antes de baterem as cinco horas, por dois polícias que se iam apresentar ao serviço, na esquadra de Viseu. Depois de acordada e em alvoroço a gente das quintas mais próximas, dois rapazes foram bater à porta da casa da Quinta de São Caetano. A Claudino Lopes Ribeiro, genro do proprietário João Alves Trindade, que se chegou a uma janela perguntaram pelo sogro. Depois de verificar que não se encontrava na cama foram a correr à poça e confirmaram ser o corpo do Trindade que estava caído na água. Chamadas as autoridades e feita a autópsia verificou-se que fora assassinado e só depois arremessado para a presa.
Por suspeita da autoria do crime foram presos e condenados, no Tribunal de Viseu em 12 de Novembro de 1927, com pesadas penas de prisão e degredo: o genro Claudino, a filha Silvina Trindade Ribeiro e ainda uma criada Albina Correia, numa pena mais ligeira por encobrimento. João Trindade preparava-se para despejar o genro e a filha da casa mas os réus sempre negaram a autoria dos crimes. Sentindo-se injustiçados lutaram durante anos nos tribunais, apresentando recursos e apelos que não foram atendidos, atribuindo o seu infortúnio à disputa pela herança do morto, um detestado "africanista" que enriqueceu em São Tomé, pessoa de mau carácter, muito dado à bebida e outros vícios.
Estes acontecimentos serviram de inspiração ao romance - “Eugénia e Silvina” de Agustina Bessa-Luís, 1989

20160115

"Aquilino Ribeiro" - Gilberto de Carvalho



-“Perdôo tudo (!) Até mesmo que me roubem (!!) só não perdôo a um homem preso que não se esforce por fugir!”.
Aquilino Ribeiro

“(…) António Maria Monteiro achava Aquilino grande, também fisicamente grande, para poder passar despercebido, mesmo vestido de mulher. E o outro comparsa o mais pequenito, era de opinião que o nosso Aquilino Ribeiro deveria sair misturado num grande grupo de amigos visitantes.
Por fim, o Sapateiro falou da tal porta da loja sob o sobrado do quarto dos presos. E foi a descoberta do caminho terrestre das índias libertadoras. (…)
Dos que entraram na aventura maravilhosa só o tal “janistroques” do jornalismo ainda está vivo, Arnaldo Malho – cujas mãos de forjador faziam gemer e seduziam o ferro que depois de espirrar, de cantar, de chorar e de rir passava do rubro ao jeito e à forma de folhas e de pétalas e floria como que encantado de ser vencido pelo artista! – Arnaldo Malho fez a chave para abrir a portasita, que dos baixos da prisão dava para o lameiro, a noroeste.(…)
O “Ai-ó-linda” não haveria de servir apenas no Éden lisboeta, de negregada memória, para abafar queixumes. Foi usado, naquela tarde bonita de fim de verão, para não ser ouvido o réque-réque-réque do serrote a cortar o sobrado na largura de um homem. Por sinal, até passaram dois pelo buraco, safando-se para a liberdade! (…)
Cá fora, sobre o muro, tendo debaixo de olhos quanto fosse de perscrutar até à estrada nacional Viseu - Sátão, estava quem lhe garantia a segurança. E de aí em diante – ala! Que se faz tarde!” (…)

Gilberto de Carvalho In “Aquilino Ribeiro (Pequenas coisas num grande homem)”- Texto de Conferência proferida na Casa da Beira Alta, no Porto, em 1968

Gilberto de Carvalho nasceu e faleceu em Viseu (n. 30/10/1904 e f. 08/09/1973). Foi Aprendiz de Serralheiro, Ferroviário, Tipógrafo, Agente de Seguros e Jornalista - actividade que prossegui até à hora da morte. A crónica do incêndio que destruiu a Casa de Saúde de São Mateus, junto ao Campo de Viriato, tem a sua assinatura, embora estivesse prostrado no leito, gravemente doente e não a tivesse escrito.
Amigo muito próximo de Aquilino esteve envolvido na sua fuga do Presídio Militar do Fontelo, actual Solar Vinho do Dão, onde o escritor se encontrava detido por estar metido num golpe que visava derrubar a ditadura militar, envolvendo civis e militares de Caçadores 10, de Pinhel, que pretendiam dirigir-se a Lisboa de comboio, no dia 21 de Julho de 1928.

Nota: A Câmara Municipal de Viseu aprovou ontem um contrato de doação do espólio documental e biblioteca de Gilberto Carvalho, ilustre jornalista viseense. Da biblioteca destacam-se primeiras edições autografadas da obra do seu amigo Aquilino Ribeiro e de Camilo Castelo Branco.

"O Crime da Poça das Feiticeiras"




"Noite de Sangue e de Mistério... O Crime da Poças das Feiticeiras" de Gilberto de Carvalho, Edição do autor, Tipografia Popular, Viseu, 1931

O autor ofereceu esta obra "a mais completa e exacta reportagem do crime (...) contendo curiosos documentos fotográficos" ao " Ex. mo Grupo Claudivinista, do Porto, que a subsidiou em parte e dela destina o produto à defeza dos condenados, Claudino Lopes Ribeiro, D. Silvina Trindade Ribeiro e Albina Correia".

"O Crime da Poça das Feiticeiras", de Paulo Bruno Alves (2012) [Facebook]

20120917

Portal com Brasão Eclesiástico


Na Rua Augusta Cruz, próximo da Praça D. Duarte, existe um interessante e enigmático portal, “luxuosamente ornamentado” e encimado com um brasão eclesiástico que infelizmente está em mau estado de conservação e a ameaçar ruína. Curiosamente os motivos que decoram cada um dos pilares são totalmente diversos e não simétricos como habitualmente. Estranhamente o brasão parece possuir uma tríplice tiara, chapéu reservado aos pontífices. As armas  duas chaves em X  (?) são adornadas com cordões e borlas. Será  obra do século XVII? e porque motivo destoa da envolvência?
No “Portugal Antigo e Moderno” de Pinho Leal, Lisboa  1890 é referido que a casa e os edifícios próximos pertenceram à família dos Abreu e Magalhães, Morgados da Santa Cristina.  Nessa época o seu proprietário era o “negociante Perdigão” (José Perdigão, pai do Dr. Azeredo Perdigão, deputado na 1ª República, Presidente do Centro Federal Republicano da Beira Alta, Editor do jornal “A Beira”, Gerente do Banco Agrícola e Industrial Visiense e Presidente da Associação Comercial e Industrial de Viseu) que tinha feito muitas obras porque as casas estavam “em grande abandono e quasi em ruínas”.
Os periódicos “Liberdade”, “Districto de Viseu” e “Jornal de Viseu” eram impressos numa tipografia instalada num dos edifícios que no século XX foi propriedade de Gilberto de Carvalho (1904/1973) – jornalista,  Bispo da Igreja Evangélica Baptista e amigo de Aquilino Ribeiro.

Fontes: Obra citada e “Monumentalidade Visiense” de Júlio Cruz e Jorge Braga da Costa , Edição AVIS, Viseu 2007

20091116

290.000 Bem-Hajam!



Os cafés regurgitam, nas ruas não há lugar onde estacione mais um carro. Santo Deus, que vem fazer tanta gente? Pois, espairecer e admirar as várzeas, os monumentos, Viriato, o Museu Grão Vasco, trocar duas larachas com o Mário Matos e o Gilberto ou encomendar dois ferros de arte ao Arnaldo Malho.

Aquilino Ribeiro in "Arcas Encoiradas", 1953 [Biografia]