Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'
Só os distraídos, os nefelibatas e os adredemente obnibulados não têm sido capazes de constatar o grande surto de desenvolvimento e progresso que grassa por todo o nosso Distrito.
Para tanto têm contribuído a ciclópica força de vontade das gentes beiraltinas, que no Governo têm encontrado um aliado incondicional.
Tal desenvolvimento ficaria sempre ancilosado se ao nível daquilo que nos é mais caro - A SAÚDE – não fôssemos capazes de estugar o passo como noutros domínios.
Assim, com a recente visita do Sr. Primeiro Ministro, Prof. CAVACO SILVA, Viseu vê finalmente cumprida uma aspiração de décadas: a construção do novo Hospital Distrital, que verá o seu arranque em 1991.
Estamos pois, TODOS, de parabéns.
Viseu, 18 de Setembro de 1990
O GOVERNADOR CIVIL,
ANTÓNIO SOARES MARQUES
* GOVERNO CIVIL DO DISTRITO DE VISEU *
TELEFONE: 23415/6/7 * TELEX: 53460 * FAX: 26701
Anúncio de página inteira publicada no extinto “Viseu Informação”, DIRECTOR: herculano costa
PUBLICIDADE ENGANOSA E A NECESSITAR DE CONSULTAS VÁRIAS A UM BOM DICIONÁRIO, PARA A MAIORIA DOS LEITORES
E mais paz trouxesse
Até que se espalhasse por toda a Terra
E morressem os donos da guerra
Seria mais feliz a nossa vida
E a violência não seria consentida…
A guerra veste-se de várias cores~
Provoca terríveis dores e horrores
Impróprios de seres humanos
Verdadeiros ditadores tiranos…
Alguns disfarçados de gente de Bem
A olhar para o seu umbigo e pra mais ninguém!
Os grandes ditadores mundiais
Conhecem a lei da força e nada mais
Convertem-nos em carne para canhão
Com drones e mísseis de 1ª geração
Que provocam uma total destruição…
“Nuclear”, por enquanto…
Só uma vez houve ousadia para tanto!
Mas… mais cedo ou mais tarde
Há de vir algum déspota tão covarde
Que utilize essa forma de destruição
Com um simples “carregar num botão”!
Capazes do melhor e do pior
Alheios à piedade, à bondade e ao amor
Apenas com o pensamento nos bens materiais
Sempre a pensar em ter mais, mais e mais
Insensíveis à fome, à miséria e à desgraça
Vivemos aprisionados numa carapaça!
É nestas águas que os ditadores navegam
Sem darmos conta para onde nos levam!
Maldita seja a maldade humana
Que existe na mente de tanto sacana!
Os humanos são os maiores predadores da terra
Muitos só pensam em dinheiro e em guerra
A avidez de poder e de riqueza
Junta ditadores opostos à mesma mesa…
O que se passa com Trump e Putin
Confirma que é assim…
O que está a acontecer na Ucrânia
É uma tremenda infâmia
O que se passa na Palestina
É uma verdadeira chacina
Os crimes de guerra são ininterruptos
Provocados por ditadores cruéis e corruptos
Trump e Putin, nenhum é tolo
O que eles querem é dividir o “bolo”!
Nenhum anda a lume palhas
São dois refinados canalhas!
Quem os dera da vista pra fora…
Mas não há meio de “irem embora”!
São amigos, tratam-se por tu…
Deviam “partir” com um míssil enfiado no c…
Para chegarem depressa ao inferno
Onde devem cumprir castigo eterno!
Por todo o mal que fizeram ao mundo…
Sinto pelos dois um nojo profundo!
Em dezembro treme de frio cada membro.
Em dezembro descansar para em janeiro trabalhar.
Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar.
Quem varejar antes do Natal, deixa o azeite no olival.
Se queres um bom alhal, planta-o no mês do Natal.
Pelo Natal, sachar o faval.
Quem quer bom ervilhal semeia antes do Natal.
Dezembro frio, calor no estio.
Caindo o Natal à segunda-feira, o lavrador tem de alargar a eira.
Dezembro com junho ao desafio traz janeiro frio.
Novembro à porta, geada na horta.
Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
Dos Santos ao Natal, inverno geral.
Dos Santos ao Natal, bom é chover e melhor é nevar.
As geadas de São Martinho levam a carne e levam o vinho.
No dia de São Martinho semeia os teus alhos e prova o teu vinho.
No dia de São Martinho, vai à adega e prova o teu vinho.
No dia de São Martinho, castanhas, lume e vinho.
Pelo São Martinho fura o teu pipinho.
Em novembro põe tudo a secar, pode o sol não tornar.
O MEU REINO POR UM... COELHO
José Fonseca e Costa é um
realizador bem sucedido, no sentido em que alguns dos seus filmes foram
êxito de bilheteira (“Kilas o Mau da Fita” – 1980”, “Sem Sombra de
Pecado” – 1982”, “A Mulher do Próximo” – 1988). O realizador pretende
fazer filmes para o grande público, deseja assumir o “Cinema Comercial” e
não trabalhar para público restrito de “cinéfilos intelectuais”. Daí a
sua aposta na produção privada e o apoio do Instituto Português do
Cinema que pretende ver a sua acção diluir-se e acabar com o regime de
subsídios. Saúde-se o aparecimento de produtores privados e criação de
uma pequena indústria de cinema nacional.
Na obra de J. F. e Costa
são visíveis, nos últimos 10 anos, claras intenções de enveredar por
esta via e melhorar a qualidade. O seu último trabalho “Os Cornos de Cronos” é, infelizmente, excepção e significa um retrocesso. É um filme
desequilibrado e um acumular de equívocos e falhanços. Grande parte das
culpas não deverão ser atribuídas ao realizador. O filme parte de um
argumento, adaptado por Américo Guerreiro de Sousa, autor do romance com
o mesmo título, obra frouxa sem dúvida, daí a sua falta de nexo e os
seu diálogos e situações inverosímeis. A realização é simples e com
certo gosto. São excepção o demasiado pudor em cenas de intimidade,
entre os dois casais a contrastar com a redundância da cena em que a
bela Ana Sofia (Inês de Medeiros) nos é dada no seu esplendor
(aproveitada em parte para o anúncio na TV) e mostrada a decadência do
seu amante Alexandre. A fotografia de Daniel del Negro é geralmente
sóbria e eficaz, porém as cenas nocturnas apresentam algumas
deficiências de iluminação e captação. No capítulo da montagem as
imperfeições são algumas e não escapam aos espectadores mais atentos. A
produção é desajeitada e facilmente se notam falhas motivadas por
descuido ou incompetência. A música de António Emiliano e passagem de
Inês de Medeiros são as suas melhores qualidades (pelos filmes de J. F. e
Costa já passaram outras mulheres igualmente belas: Lia Gama, Vitória
Abril e Assumpta Serna). Os restantes actores estão no trivial dos
portugueses e é notória a sua falta de talento ou de experiência de
cinema. O brasileiro Carlos Veresa (Alexandre) está muito mal, ridículo
nas três fases da sua vida. De salientar a título de curiosidade, a sua
figura algo semelhante à do realizador que, aliás aparece no filme numa
breve imagem. Os espectadores não são capazes de distinguir se estão
perante um drama ou uma comédia e desatam a rir em situações que, em
princípio, o não justificariam de modo algum. O cinema simula o real, o
que não significa ser realista, todavia este filme depressa deixa de ter
a adesão do público que nele não acredita, a história soa a falso.
Veja-se a título de exemplo: a cena do jovem apaixonado, o primo
Baltazar especado no meio da praça empunhando um ramo de flores e as
cenas que vão com certeza ficar famosas, na história do Cinema
Português, as cenas de caça. O coelho vai, certamente, ficar famoso.
Bugs Bunny (o Pernalonga) e Roger Rabitt, duas personalidades bem
conhecidas do Cinema, estão em pânico... Alguém poderá lembrar-se de
apresentar o coelho do filme de José Fonseca e Costa, figura bem
simpática, a candidato ao “Oscar” para o “Melhor Coelho do Ano”. Bugs
completou no ano passado os seus 50 anos, e nunca será vítima da doença
de Cronos – o envelhecimento e a decadência.
António João
"Viseu Informação", 10 de Abril de 1991
Filme apresentado em antestreia, sem a presença do realizador, no "Auditório Mirita Casimiro"
“Voto Na AD Mas É Merda...” - Duo Ele e Ela - 1981
Foste um parvo, Zé Lacerda
Ó mulher, vai lá à merda
Votaste na AD e eu não sei pra quê
Mas não foste só tu, foram mais enganados
Subiu e sobe tudo, tudo como se vê
E ninguém fez subir, subir os ordenados
Já vem de trás a crise que o país atravessa
Há muito pra falar e muito pra fazer
Pois há, mas há que haver, haver menos conversa
E dar o ordenado que chegue pra viver
Porra!
A AD, a AD há de ser renovada
Cala a boca, Lacerda
A AD não vale nada
Para as novas eleições
Vais votar com o Lacerda
Não voto em aldrabões
Ó mulher, vota na AD
Voto na AD mas é merda
És um parvo, Zé Lacerda
Ó mulher, vai lá à merda
Vai tu
Votaste na AD pra ires à televisão
Mas agora já vês o teu sonho acabado
Nem mesmo te valeu o Pinto Balsemão
Foste atrás da conversa e ficaste tramado
Continuam os mesmos por detrás da cortina
Meia dúzia de artistas donos da televisão
Mas há de ser a AD que com isso termina
Para haver igualdade em todo o cidadão
Puxa
Cala a boca, Zé Lacerda, tu não sejas intrujão
Foste um parvo, Zé Lacerda
Ó mulher, vai lá à merda
É pá, vamos
A AD, a AD há de ser renovada
Cala a boca, Lacerda A AD não vale nada
Para as novas eleições
Vais votar com o Lacerda
Não voto em aldrabões
Ó mulher, vota na AD
Voto na AD mas é merda
Bem conversadinho ainda dás a tal voltinha
Querias, querias, mas é que eu não dou, não
Oh, não dás agora, até dás
Isso é que era bom, e não me estejas a enervar, hã?
Não te enervo, oh filha, tem calma, tem calminha
Olha que carga de trabalhos, hã?
Olha pra ele, hã? Isso é que era bom, não dou, não
A AD, a AD há de ser renovada
Cala a boca, Lacerda
A AD não vale nada
Para as novas eleições
Vais votar com o Lacerda
Não voto em aldrabões
Ó mulher, vota na AD
Voto na AD mas é merda
Livra-te!
Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.
Manuel Alegre: Obra Poética, Lisboa (1999), publicações D. Quixote, p.444
Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol
progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.
Miguel Torga, in Diário XVI
Muitos políticos são amigos do alheio
Mas há muita gente séria lá pelo meio…
Parece que quanto mais alto é o patamar
Maior é a tendência para mentir e ocultar…
Sinto uma tristeza sem fim
Por termos tantos políticos assim…
Vai ser difícil acabar com esta realidade
Que dificulta tanto a governabilidade…
As gémeas, as casas e a empresa
Não são invenções, tenho a certeza!
Quem depois da tormenta ter provocado
Diz que o adversário é que é o culpado
Deve ser julgado e afastado…
Gente desta
Não presta!
CELSO NETO
Cada vez menos espectadores nas salas de Cinema e mais gente transportando caixas de plástico com cassetes de vídeo. Geralmente vão aos pares e caminho de casa. Certamente que isto é uma constatação partilhada por muitos amigos. Os tempos que correm são assim:
Individualismo e facilidade.
Mais cassetes a “passear” e menos pessoas nas salas, lugar e eleição para os encontros com o mundo maravilhoso, fascinante e falso do Cinema.
É mais cómodo, a escolha mais ampla, mais económico e os que escolhem o vídeo ficam contentes. E fazem muito bem. Desfrutam ao seu modo.
O vídeo não me satisfaz. Ainda lhe falta muito para ser comparável ao Cinema e nunca o será. São duas coisas distintas e talvez venham a ser complementares.
O Cinema é na sala escura, no “Silver Screen”.
Cinema é viver em grande.
O vídeo não passa de uma pálida imitação do Cinema. As tv’s do futuro (próximo) serão grandes, para pendurar na parede, com formatos respeitadores dos écrans de Cinema e o mais importante de qualidade de imagem capaz de rivalizar com a película (alta definição).
Vamos aguardar a sua chegada. Claro que estes equipamentos vão ser caros, no início, depois a massificação fará baixar os custos.
O meu fascínio pelo Cinema vem de longe. Muito pequeno e já fugia de casa para o Cinema. Com três anos é evidente que o podia frequentar e por isso me limitava a olhar os cartazes, as fotografias e as grandes letras dos anúncios.
Ficava-me pelo “Hall” e por vezes atrevia-me a chegar à porta de onde fluíam os sons maravilhosos daquele mundo. Lá estavam o polícia, o porteiro e aquela porta fechada para mim.
Os amigos e vizinhos passavam o tempo a levar-me para casa e eu a regressar, logo que podia, para em bicos de pés, admirar as imagens dos cartazes que tanto me atraiam.
Cresci e a sala foi encerrada. Sim salas de Cinema a fechar não são coisa de hoje. Aquela sala era um Teatro e morreu talvez devido ao sucesso da TV.
Inegavelmente o vídeo tem coisas boas. Só o vídeo permite apreciar algumas das mais belas joias da 7ª. Arte. Só o vídeo permite, a muitos ver e rever as imagens ao ritmo da vontade e disponibilidade.
O Cinema exige uma entrega e um esforço maior, todavia é muito mais gratificante. Embora na obscuridade sentimos a presença dos outros e as suas reações.
As emoções vão percorrer a sala e contagiar os espectadores. Do cone de luz liberta-se Magia e esta invade a sala rapidamente. O projecionista é o mágico, o ilusionista que dirige o espectáculo da luz e da vida. Ele consuma o casamento feliz da película, com a luz. E este é um momento único.
Sejamos optimistas. O Cinema também pode ser melhor, ser ainda mais envolvente e sedutor, manter, recuperar e ganhar novos amantes.
AJ, in “Argumento”, Boletim Informativo do Cine Clube de Viseu, nº 38 de Novembro de 1990.
P.S. – A sala referida no texto era o demolido “Avenida Teatro”, existente na Avenida Emídio Navarro. Este despretensioso pedaço de prosa, foi classificado pelo diretor do boletim do Cine Clube de Viseu que o aceitou para publicação, algum tempo depois de ter sido publicado, como “Sendo uma redação da 3ª Classe”. Facto que muito me honrou, vindo de um tal, Joaquim ALEXndre Oliveira Rodrigues (ALEX), cujo nome aparece, apenas 6 vezes, nessa edição do boletim do qual era director.
"Vídeo Kills The Radio Star" - Música dos "The Bugles", de 1981 , primeiro vídeo exibido pela MTV
“Os portugueses são naturalmente sofredores e pacientes: muita arrochada há-de ser a corda com que de mãos e pés os atam os seus opressores antes que rompam em um só gemido os desgraçados. Um murmúrio, uma queixa… nem talvez no cadafalso a soltarão!”
Almeida Garrett (Carta de M. Scevola, 1830)
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa tudo continua.
Na fluída e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.
Fernando Pessoa
Pastorinhas do deserto,
Levantai-vos que é de dia;
Há muito que o sol é nado
No regaço de Maria.
Deixai cajado e manta,
Vinde todos a Belém
Adorar o Deus Menino
Nos braços da Virgem-Mãe.
Leva arriba, pastorinhos
Leva arriba, maltesia,
Já lhe está a dar a mama
Sua mãe Virgem Maria.
Aquilino Ribeiro in “O Livro do Menino Deus” (1945)